Sra. Critiquinha e o Sr. Criticão e a arte de preparar o baiacu

03-04-2016

Acho que todos concordamos se eu disser que estamos a viver um período muito difícil em Portugal. Há 10 anos que se ouve falar de crise, de desemprego, etc. etc. A Saúde está mal, a Educação está mal, a Economia pior, etc, etc. Ligamos a televisão e as más notícias somam-se, umas atrás de outras. Revolta-nos os casos de corrupção, ficamos tristes quando somos apontados pelo mau exemplo de alguma coisa, quando vemos os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais probres. Enfim, não vale a pena continuar... Não sou de lamúrias, nunca fui e também nunca serei. Sou otimista por natureza, acredito sempre que amanhã será melhor. Mesmo quando as coisas estão más, acredito que há sempre uma solução. Procuro olhar para o lado positivo das coisas, ver o lado bom das situações e das pessoas também.
Muito da nossa situação se deve a esta nossa eterna mania de falarmos mal de tudo e de todos. Estamos sempre a criticar, a apontar o dedo. Procuramos as desgraças e só as desgraças, os casos tristes são notícia. Não reconhecemos os exemplos de sucesso, não elogiamos o que somos e o que fazemos de bom. É esta cultura de "bota abaixo" que me entristece.
O pai que critica a má nota na escola e que se esquece de reconhecer o esforço do filho e a boa nota quando finalmente ela chega. O patrão que está sempre em cima para censurar mas nunca aparece quando o empregado arranja a solução para aquele problema que lhe andava a tirar o sono. O marido que só reclama porque o arroz tem pouco sal, e não vê quantas horas trabalha a mulher, que se levanta às seis da manhã e se deita já tarde, muito depois de ele se deitar.
Enfim, somos profissionais a apontar o dedo a tudo e a todos, mas sempre pelo lado negativo! A nossa auto-estima é baixa, orgulho não temos. Aos espanhois chamamos de arrogantes e aos franceses de vaidosos, porque se dizem bons, em tudo o que fazem e por aquilo que são. Lembrando aquele anúncio do leite, se nós não gostarmos de nós, quem gostará?
Quando alguém nos elogia, ficamos logo desconfiados. Se alguém conseguiu um grande feito, teve sorte, se tem dinheiro é filho de pai rico ou casou "bem". Digam lá, não estou a exagerar, pois não? Os emails do tipo "Portugal no seu melhor" aparecem de todo o lado. Parece que toda a gente se diverte com a ignorância ou a estupidez dos outros. "Nós por cá" já faz parte do nosso quotidiano.
De uma coisa eu tenho a certeza, nunca seremos positivos se não pensarmos positivo. Nunca teremos saúde se pensarmos o tempo todo na doença que temos. Existe muita tristeza nas nossas palavras, muita nostalgia nos nossos pensamentos. Talvez não haja nada a fazer. Afinal, temos o fado e a "saudade". Que prova maior daquilo que acabei de dizer...
Como diz o meu querido Roberto Goldkorn existe por aí muito Sr. Criticão e muita senhora Dª Critiquinha. Fazem da crítica o pão nosso de cada dia. O dia nem é dia se não fizerem uma "criticazinha" seja do que for. Seja do governo que está pior que nunca, dos canais de televisão que não dão nada que preste, do filho que nunca vai dar nada na vida, da vizinha que tem a mania e não liga a ninguém só porque não pára na rua para conversar sobre a vida alheia. Enfim... quando encontram alguém que se junta de bom grado a um "corta na casaca". Ah! Aí sim, o dia torna-se maravilhoso!
Não estou a dizer que não tenhamos espírito crítico. Nem que a crítica, principalmente a que chamamos de construtiva, não tenha um papel na nossa vida. O problema é que a grande maioria de nós não sabe utilizar a crítica. Nem tem o sentido de oportunidade. Nem sabe qual a forma em que ela deve ser feita.
E volto novamente a Roberto Goldkorn pois hoje usei o seu livro "Conquistando Corações" precisamente para falar desta atitude de julgamento, de juízo de valor e de crítica que muitos utilizam cheios de boas intensões (mas que de boas intensões está o inferno cheio).
Neste seu livro, Goldkorn compara a crítica à preparação do peixe baiacu, um dos peixes mais controversos da culinária mundial. Todos os anos, cerca de cinco pessoas morrem - e muitas outras são internadas - depois de comerem o peixe. Em alguns períodos da história do Japão, o prato foi proibido e até o hoje é o único que imperador japonês não pode provar, para sua própria segurança. Aliás, somente cozinheiros que receberam a licença do governo japonês podem preparar o baiacu. E passam por uma prova, depois de até 10 anos de treino. É preciso ter habilidade para tirar o fígado do peixe sem contaminar a carne. É nesse órgão que se concentra a tetrodoxina, um veneno que ataca o sistema nervoso central dos predadores deste peixe e, para o qual, não há antídoto.
No entanto, esta é uma das iguarias mais apreciadas e mais caras do mundo!

Assim deve ser a crítica, diz Roberto Goldkorn e que concordo inteiramente. Se o fizermos só para "matar" o próximo, então não o façamos. Se não soubermos o que ela pode fazer ao outro porque não a sabemos usar, então, fiquemos em silêncio.

Já dizia António Aleixo "que nós, às vezes, calados, dizemos mais que falando" e ainda "Para não fazeres ofensas e teres dias felizes, não digas tudo o que pensas, mas pensa tudo o que dizes".

Share
© 2020 Elisabete Araújo | Formação & Consultoria
Desenvolvido por Webnode Cookies
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora